Transição de agrolojas para pet shops ainda trava no Brasil
4/30/2026

Transição de agrolojas para pet shops ainda trava no Brasil

A transformação das agrolojas em pet shops no interior do Brasil avança de forma desigual e ainda encontra entraves estruturais, operacionais e culturais. Segundo a especialista em varejo Regina Blessa, o movimento é influenciado por características regionais e pelo grau de maturidade do lojista na leitura do mercado. “O Brasil são vários ‘Brasis’. Em regiões fortemente agro, como Centro-Oeste e Sul, muitas lojas ainda mantêm uma base sólida no campo, mas foram obrigadas a incorporar o pet, que cresceu dentro dessas operações”, afirma. O resultado, em muitos casos, é um modelo híbrido que não consegue atender bem nenhum dos dois públicos. Modelo híbrido expõe crise de posicionamento A falta de definição clara é apontada como o principal gargalo. “A gente vê muita loja no meio do caminho. Nem é agro, nem é pet. E isso confunde o consumidor e enfraquece a operação”, explica Regina. Esse problema começa na comunicação e se estende para toda a experiência de compra. “A fachada precisa dizer o que você vende. Em três segundos o cliente decide se entra ou não. Se não fica claro que é pet, você perde essa oportunidade”, afirma. Além disso, o apego ao modelo antigo ainda pesa na tomada de decisão. “Tem lojista que mantém produtos que representam 1% do faturamento por tradição familiar. Isso ocupa espaço, trava o sortimento e reduz a eficiência da loja”, destaca. Serviço subexplorado e lógica de exposição Outro ponto crítico é a resistência à incorporação de serviços, especialmente banho e tosa. Segundo Regina, muitas agrolojas evitam essa frente por experiências negativas ou dificuldade de gestão de equipe. “Muita gente não quer nem saber de banho e tosa porque já teve problema. Mas o serviço é o grande gerador de fluxo”, afirma. Ela explica que operações que estruturam bem essa área conseguem atrair clientes de forma recorrente, reduzindo a dependência de promoções e tráfego ocasional. “O cliente vem pelo serviço e consome outros produtos. É isso que sustenta o movimento da loja”, complementa. A organização interna também aparece como fator decisivo para o sucesso da transição. Um erro recorrente é a disposição dos produtos por marca, e não por lógica de consumo. “O cliente não pensa por marca. Ele pensa no animal dele. Se é gato, ele quer achar tudo de gato junto. Misturar isso dificulta a compra”, explica. A especialista reforça que o layout deve seguir princípios básicos do varejo alimentar, facilitando a jornada do consumidor. “A gente não se perde no supermercado porque existe lógica. No pet precisa ser igual: separar por espécie, por necessidade e por faixa de preço”, afirma Além disso, o ambiente da loja precisa dialogar com o público predominante. “Cerca de 80% dos compradores são mulheres. Se a loja mantém um ambiente pesado, típico de agro, ela afasta esse público”, pontua. Curadoria e gestão ainda são pouco profissionalizadas A curadoria de produtos e a gestão de estoque também são pontos sensíveis. Segundo Regina, muitos lojistas ainda operam sem indicadores claros. “Quem decide o que fica na loja é o sistema. Produto que não gira precisa sair. Não dá para trabalhar com base em achismo ou tradição”, enfatiza. Ela também chama atenção para a falta de controle de estoque. “Tem loja que ainda trabalha com Excel ou sem acompanhamento real. Isso impede entender o que vende e o que só ocupa espaço”, diz. As operações que conseguem fazer a transição com sucesso apresentam alguns padrões claros. O primeiro é a comunicação direta com o consumidor. “A loja precisa deixar evidente que é pet logo na entrada. Isso muda completamente a percepção”, explica. Outro ponto é a separação física e estratégica dos ambientes. “As lojas que deram certo criaram uma área pet bem definida, geralmente na entrada, e deixaram o agro mais ao fundo. Isso organiza o fluxo e melhora a experiência”, afirma. Além disso, há foco no cliente e não no histórico da operação. “Você precisa entender quem é seu público hoje, não quem era no passado. O erro é tentar manter tudo e não escolher um caminho”, destaca. Para Regina, o futuro do canal depende dessa capacidade de decisão. “Dá para atender agro e pet, mas com estratégia. O problema é quando o lojista não assume nenhum dos lados e perde identidade”, afirma.
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